Crítica atrasada da novela Passione

Publicado: 12 de março de 2011 em TV Brasileira
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Passione acabou. Criticas foram levantadas e elogios também. Mas eu acho que ainda falta uma crítica diferente, e é isso que essa vai tentar ser. Até o Sílvio de Abreu, autor da novela, já disse (em uma fantástica entrevista) que a crítica de TV no Brasil é despreparada. Então talvez eu, alguém que sonha em poder escrever TV um dia (sonho distante), possa escrever algo digno da grande novela Passione.

Começando pelo começo, a abertura da novela foi magnífica, um trabalho perfeito, uma sinopse da trama, mostrando um monumento artístico, uma foto de um italiano feita de lixo e peças de bicicletas. É um sincretismo do que é o personagem principal, Totó, filho de uma magnata do ramo de bicicletas e um magnata do ramo de lixo. Perfeito. Além do mais, o nome da novela e a música-tema, que falam de paixão, tem tudo a ver com a novela, regida pela paixão desmedida de Totó por Clara! Enfim, tudo, do começo ao fim, faz perceber que Sílvio de Abreu tinha tudo planejado. E isso é um ponto a favor.

Uma coisa interessante em se fazer uma crítica depois de todo mundo é poder criticar as criticas, e com certeza isso vai acontecer aqui.

A começar pelo lado bonzinho de Passione, que com certeza não é o foco. Aqui o divertido são os vilõs, e eu não gosto mesmo de mocinhos, acredito que o Sílvio também não. Um ponto bacana e altamente interessante de Passione é que todos os personagens tem o lado bom e o lado ruim. Portanto, os personagens se tornam mais interessantes por isso. Criticam a Diana por ela ser boazinha de mais, mas ela tinha uma rixa homérica com a Melina. Pra mim pouco importava o namoro dela com o Mauro, eu gosto é das coisas divertidas. Nada tão divertido como o conflito do Mauro pra salvar a empresa largar a mulher que ama e ficar com a Melina. Fantástico! É isso que eu quero ver: conflitos e surpresas. Por falar em Melina, foi uma das personagens mais bem construídas ever! Ela não era boa, nem má, era simplesmente uma personagem mimada e sem escrúpulos, achando que tudo que ela quer, tem que conseguir. E a Mayana Moura brilhou fazendo essa contraditória personagem. E até mesmo tem um motivo pra Melina e os outros filhos da Bete serem como são, e que é um dos motes da novela, que é a criação dos filhos.

Isso é uma coisa que eu acho boa em Passione. Estimula a reflexão. Pra começar, por nem todo mundo ser bom nem mau completamente. Não há maniqueísmo. Depois, porque Clara foi abusada pela avó, Fred foi traumatizado pelo pai e os filhos Gouveia foram mal criados, conseguindo tudo o que queriam. Isso gera uma importante, inédita e divertida discussão sobre a criação dos filhos. Muito bem feito mesmo.

Eu concordo que, como novela, Passione foi um fracasso. Não tinha nenhuma das características capazes de fazer uma novela ter sucesso de novela. Mas foi uma ótima obra de arte, superior ao que costumam ser as novelas. Tinha mais qualidade do que costumam ter as novelas, mas, por fugir do básico, arrumou briga com a conservadora população noveleira no Brasil.

Tudo na novela girou em torno de Bete Gouveia, que foi vivida pela fantástica atriz Fernanda Montenegro, que estava econômica nessa novela, por algum motivo. Mas ainda assim, Bete teve momentos de extrema esperteza no decorrer da novela, dignos de uma grande personagem principal. Mauro foi outro personagem bonzinho que brilhou, mostrando que também era capaz de lutar de igual para igual com os vilões.

Aliás, os vilões são o brilho nessa novela. Mesmo não fazendo muitas vilanices (e mesmo assim a novela continuou eletrizante, coisa que só um grande autor poderia fazer), eles chamaram a atenção. Na verdade, Passione foi uma novela sobre vilões em guerra um com o outro e os bonzinhos no meio dessa briga. Uma mistura interessante e cheia de surpresas. Fred e Clara e seus embates foram impressionantes. E eles nem eram vilões muito inteligentes, na verdade eram bastante burros, mas às vezes tinham suas ideias geniais também.

Saulo foi outro ótimo vilão, vivido por Werner Schuneman, era arrepiante. Infelizmente morreu cedo na novela (e de forma violentíssima). Mas foi pro bem a morte dele. Iniciou a fase de mistério da novela, que não foi tão chamativa quanto a de Belíssima, mas na parte importante, a revelação, foi infinitamente superior (embora o modo como a Clara fingiu a própria morte foi imitação de Bia Falcão).

Mas a história não parou, foi cheia de emoções. Depois dos lixos Páginas da Vida, Caminhos da Índia e Viver a Vida, Passione foi uma grata surpresa. Simplesmente, do começo ao fim, ela nunca parou. Um grande feito. Apesar de que, para isso, alguns núcleos secundários desnecessários tiveram que existir. Mal de novela. Berilo, Jéssica, Agostina e Mimi eram um bom núcleo… no começo. Depois, passaram a repetir e repetir e repetir e repetir. Depois repetir de novo. Cansou, virou um porre. Haviam inovações nas maneiras de repetição, mas não justificavam a existência daquela trama. E, no fim, Sívlio de Abreu optou pela saída mais fácil, rápida, óbvia e clichê para os três, teve medo do desafio de ser criativo e inventar uma maneira bacana de terminar a história deles. A Clô foi uma grande personagem cômica da novela, mas mais pra frente na novela, o autor começou a exagerar e, mesmo com a impecável Irene Ravache, a personagem não tinha como não se perder em meio aos exageros do autor.

Passione foi, também uma novela sem censura. Teve cenas fortes, temas fortes. O que é bom, dá mais valor de realismo à trama. A vida não é sutil. O final de Agostina, Berilo e Jéssica foi antiético, assim como o da velhinha Brígida. Dois finais tão parecidos numa mesma novela podem ser considerados um ataque de falta de moral desnecessário. Concordo.

Ligações familiares complexas são um dos marcos de Passione, que a tornam mais original e única. São tantas ligações e tão doidas e inusitadas… mas o autor parece ter invocado com esse (genial) conceito e exagerou muito. São tantas coincidências, tantos parentescos, chega ao ridículo. Mas ainda assim, isso não atrapalha as emoções da novela e dá um ar de originalidade ao produto. Embora seja um defeito.

Em termos de atuações, tivemos grandes representantes e grandes momentos. Como, por exemplo, o momento da morte de Totó (eu até torcia pra ele ter morrido mesmo, já que ele queria controlar todo mundo, principalmente os filhos, era um chato!). E, depois, a volta do Totó. Foram alguns dos grandes momentos de Passione, uma novela cheia de emoçõese grandes ganchos, como tem que ser!

Apesar do maior erro da novela: coincidências. Por coincidência, Stela se apaixonou pelo subrinho do marido. Também por coincidência, a filha dela se apaixonou por Anielo. Germano veio parar logo na casa de Bete no Brasil, onde futuramente encontraria Gema, e onde Gema viveu criança! Fátima foi se apaixonar logo por Sinval, subrinho do pai desconhecido dela. Berilo veio para o Brasil e, coincidentemente, se casou com a meia-irmã do seu ex-sogro. Tem muito disso em Passione e tira a credibilidade da trama.

Quanto ao segredo de Gerson, eu acho que foi muito bacana. O erro não estava no segredo e, sim, no fato de ter se tornado um segredo. Falar que o segredo do personagem foi fraco é bobeira, uma vez que uma coisa que pra um é normal, pra outra pessoa é terrível. Então é normal que para o Gerson, o que ele sentia fosse anormal, principalmente por ser completamente diferente do normal da vida dele. Foi um merchandising social, praticamente. E o autor fez um segredinho em cima disso, que virou um segredão sem necessidade. O que eu concordo que foi um erro foi o exagero da reação da Diana (Carolina Dieckamn), que fez parecer que o segredo era mesmo um mistério. Aliás, em outros momentos também houve exagero. O autor sabia que não era grande coisa, deveria ter dosado um pouco mais a chamada de atenção para esse ponto.

Mas Passione teve uma coisa muito legal, que foi o fato de que nunca nós, espectadores, sabíamos o que estava acontecendo na novela! A gente via a cena e não sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Isso é fantástico! Ainda mais combinado com a, pela primeira vez funcional, técnica de gravar várias cenas de uma mesma coisa e depois escolher uma, confundindo o público.

Enfim, o saldo foi extremamente positivo (apesar dos exageros do AS nos núcleos cômicos)! Valeu!

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