Defendendo Babilônia

Publicado: 1 de abril de 2015 em TV Brasileira
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Eu senti que era necessário fazer essa postagem. Não apenas por achar essa uma novela de qualidade e o boicote a ela uma enorme babaquice. Mas principalmente por causa do que se esconde por trás dessa rejeição. Esse é um post muito mais sobre as pessoas do que sobre a novela em si.

Eu li muitas coisas hediondas sendo ditas, muita idiotice, inclusive vindo de pessoas que eu admiro. Isso, obviamente, me fez ver essas pessoas de maneira um pouco menos positiva. Não por que simplesmente eu não concordo com a visão de quem critica a novela. Mas por que só o que eu vejo é uma grande repetição de ideias, sem nenhum julgamento crítico por trás do que as pessoas dizem.

Só vejo as pessoas jogando palavras, às vezes sem se valer de um contexto que dê algum significado a elas, palavras como “incentivo” e “influência”. Eu não sei que tipo de poder essas pessoas acham que uma novela tem.

Criticam a novela por que ela tem muita violência e coisas ruins, bem todas as obras precisam tirar drama de algum lugar. Mas o mais importante nesse julgamento é a falta de uma racionalização. É como se as pessoas deliberadamente se recusassem a pensar, ou talvez tenham preguiça de fazer isso. Por que o “como” é mais importante, nesse caso, do que o “quê”. E a novela não mostra as coisas ruins como desejáveis e boas. São vilões que as cometem, vilões que são combatidos pelos mocinhos, vilões que pagarão pelo que fizerem. Portanto, a mensagem é positiva.

E ignoram, também, todas as campanhas sociais que as novelas sempre trazem.

Além do mais, a novela é inspirada na vida real, e essas coisas existem na vida real.

Mas, mais importante do que isso, a novela é para adultos. Sua classificação indicativa, geralmente, é de 12-14 anos para cima. Nessa idade, se supõe que as pessoas já saibam julgar certo e errado por si mesmas. O próprio fato de que as pessoas estão ficando contra a novela já indica que as pessoas estão julgando o conteúdo moral da própria, e não sendo influenciadas. Eu vejo nisso as pessoas tendo muito pouca confiança no julgamento alheio, como se só elas tivessem essa capacidade de distinguir entre certo e errado e as outras pessoas só consumissem passivamente TV, aceitando tudo que vêem, o certo E o errado. É claro, por esse ângulo, que existe certa condescendência nesse pensamento, como se a pessoa que critica a novela fosse melhor do que as outras. Eu mesmo estou sendo um pouco condescendente nesse texto, mas só por que as coisas que eu tenho lido justificam isso. Mais do que isso, enquanto os julgamentos dessas pessoas vem apenas de si mesmas, ou seja, do nada, o que eu digo vem de um processo de racionalização.

E a novela é boa, tem um texto excelente, cheio de bons personagens, boas tramas, tudo muito bem costurado, com bons ganchos, bom tudo. E não tem, de maneira nenhuma, conteúdo diferente de qualquer outra obra audiovisual. Só as novelas infantis podem se dar ao luxo de darem lição de moral, por que elas são feitas para crianças, pessoas ainda em desenvolvimento. Uma novela para adultos não pode fazer isso, por que seria subestimar a inteligência do telespectador. Game of Thrones, por exemplo, pra mim uma série perfeita, a melhor da atualidade. Por retratar um mundo baseado no nosso período medieval, é perceptível que todas as pessoas lá tem morais defasadas. Mas a série não fica se explicando sobre isso, por que ela é para adultos, e ela confia que saibamos julgar o que vemos. Por que deveríamos.

Mas eu me recuso a acreditar que as pessoas não tenham a capacidade de pensar nisso tudo. Prefiro acreditar que elas estejam escolhendo ignorar a parte sã e racional de seus cérebros.

Por um motivo. O beijo gay das duas senhorinhas fofas. Sim, outras novelas tiveram beijos gays, então eu acho que o problema agora é a influência dos evangélicos idiotas. E eu digo evangélicos idiotas como uma locução adjetiva – também existem aqueles que são apenas evangélicos. Eu mesmo tenho parentes evangélicos e eles são bastante racionais. Eu não entendo, mas parece que os evangélicos famosos e que automaticamente representam a classe são só os idiotas. Por que os evangélicos decentes não ficam famosos? Por que eles não se pronunciam contra os idiotas que mancham o nome de todo um grupo, os evangélicos idiotas que mancham o nome de toda a comunidade evangélica? Sim, por que se criou um estigma de homofobia em torno desse grupo, e isso não é, necessariamente, verdade. Eu até creio que a maioria não seja.

Não há problema nenhum em não aceitar alguma coisa. O problema está em ignorar e abandonar, deliberadamente, a razão.

E eu não acredito que as pessoas saibam o que estão dizendo quando criticam essa novela. E o que isso diz sobre o povo brasileiro? Um bando de ovelhas seguidoras sem a capacidade de pensar ou de julgar por si mesmas, e além de tudo um povo sem nenhuma humanidade? Sim, digo isso por li coisas grotescas por aí. Coisas que desumanizam o homossexual, como se ele não fosse mais um ser humano para a mente dessas pessoas.

E mesmo que eu saiba que ser gay é algo perfeitamente normal, não é por esse ângulo que eu vou abordar a questão. Por que eu apoio o direito dessas pessoas terem um pensamento diferente do meu (mesmo quando elas estão erradas). O que eu não apoio é o que está por trás disso. Essas pessoas não querem só pensar diferente, elas querem banir os gays da televisão. E isso eu não posso apoiar, por que isso é censura, e vai contra a liberdade de expressão.

Novelas são arte. É uma coisa estranha de dizer e não parece factível. Mas elas são artesanais, montadas pela criatividade dos escritores. Especialmente no Brasil, onde se notam estilos, que é uma das características de arte. Manoel Carlos, Gilberto Braga, cada autor brasileiro tem um estilo muito característico. E eu sou contra querer censurar, impedir, cercear os temas que os autores podem escrever. A novela pode ser um produto aberto, por que ela é mudada de acordo com a opinião da audiência. Mas, mesmo assim, autor e público escrevem a novela juntos. TODO o público.

E aqui entram os aspectos práticos, racionais, de que não se pode divorciar.

Os gays também vêem novela. Eles também são gente, e novela é um produto de massa, feito para todo mundo. E nós também queremos nos ver representados na ficção, do mesmo jeito que um hetero quer se ver representado. E querer impedir isso é a mesmíssima coisa de querer impedir que a TV mostre negros, ou chineses, ou anões, ou gordos. É a tentativa de invisibilizar um grupo. Como se as pessoas que querem impedir que os gays apareçam na TV fosse mais importantes do que as outras. Só a opinião delas importa. Só o que elas querem que seja mostrado na TV deve ser mostrado. A TV não é feita só para as maiorias, mas também para as minorias. Por que as minorias existem também. E só por que elas são minorias, não significa que não tenham o mesmo valor.

E mais do que isso, gays ainda sofrem violência por isso, ainda são mortos por isso. Então a TV tem não apenas o direito, como o dever de mostrar essas pessoas. Por que é o marginalizar, e o tornar invisível, que permitem e que são coniventes com a violência. E é claro que uma pessoa que é a favor desse tipo de violência contra outro ser humano só pode ser um psicopata. E, também, muitos pais rejeitam os filhos por serem gays, então a homofobia ainda acaba com algumas famílias. E a TV pode não ter a capacidade de influenciar as pessoas, mas ela tem a capacidade de visibilizar. Por que a impressão que se tem é de que só o que aparece na TV existe. E os gays existem. Não mostrar eles não vai fazer eles sumirem. A verdade e a crença não tem correlação. Não é só por que você quer um milhão de reais na sua conta, que esses um milhão vão existir.

Outro fator é a verossimilhança. A novela, como produto influenciado e inspirado pela realidade, tem que tentar ser realista. E uma maneira de fazer isso é colocando temas atuais nas tramas. Uma novela sem gays seria menos realista por isso.

Dito isso, eu vou dizer que ainda vejo um problema na representação deles na TV. Que é a repetição de personagens e tramas. Todos os personagens gays tem que vir acoplados a uma história de homofobia e/ou saída do armário. É como se em todas as novelas o mocinho e a mocinha tivesse exatamente a mesma trama, só apresentada de maneira diferente. É repetitivo e cansativo. Nisso eu entendo haver reclamação. Até por que é como se a novela estivesse dizendo ao público que ele é homofóbico e por isso ela precisa tratar de homofobia. É ofensivo. As novelas já trataram homofobia e armário o bastante para que o público esteja mais esclarecido. Nos EUA, que é um país mais avançado, a TV já mostra gays com naturalidade. Em séries como How to Get Away with Murder e Teen Wolf. Apesar de que, nas novelas, como Days of Our Lives, a trama gay ainda é sobre armário e homofobia. Mas o produto principal lá são as séries, aqui é a novela.

Eu não culpo o público por se cansar de ver sempre a mesma história se repetindo de novo e de novo. Mas as pessoas deveriam ter vergonha de falar certas coisas que elas dizem.

Pensando bem, talvez a novela tenha, sim um problema. Ela pesou um pouco a mão na maldade. Eu digo isso não por mim, por que eu adorei e adoro. Mas sei que a novela não é feita só para mim e não é só a minha opinião que importa. E essa rejeição não pode ser só sobre as lésbicas, por que outras novelas já tocaram no assunto. Eu temo que a novela perca a qualidade para agradar ao público, mas ao mesmo tempo sei que algo tem que mudar, e vai mudar. Por que se o público está se manifestando contra  novela, é por que queria gostar dela. Já é meio caminho andado.

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