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Defendendo Babilônia

Publicado: 1 de abril de 2015 em TV Brasileira
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Eu senti que era necessário fazer essa postagem. Não apenas por achar essa uma novela de qualidade e o boicote a ela uma enorme babaquice. Mas principalmente por causa do que se esconde por trás dessa rejeição. Esse é um post muito mais sobre as pessoas do que sobre a novela em si.

Eu li muitas coisas hediondas sendo ditas, muita idiotice, inclusive vindo de pessoas que eu admiro. Isso, obviamente, me fez ver essas pessoas de maneira um pouco menos positiva. Não por que simplesmente eu não concordo com a visão de quem critica a novela. Mas por que só o que eu vejo é uma grande repetição de ideias, sem nenhum julgamento crítico por trás do que as pessoas dizem.

Só vejo as pessoas jogando palavras, às vezes sem se valer de um contexto que dê algum significado a elas, palavras como “incentivo” e “influência”. Eu não sei que tipo de poder essas pessoas acham que uma novela tem.

Criticam a novela por que ela tem muita violência e coisas ruins, bem todas as obras precisam tirar drama de algum lugar. Mas o mais importante nesse julgamento é a falta de uma racionalização. É como se as pessoas deliberadamente se recusassem a pensar, ou talvez tenham preguiça de fazer isso. Por que o “como” é mais importante, nesse caso, do que o “quê”. E a novela não mostra as coisas ruins como desejáveis e boas. São vilões que as cometem, vilões que são combatidos pelos mocinhos, vilões que pagarão pelo que fizerem. Portanto, a mensagem é positiva.

E ignoram, também, todas as campanhas sociais que as novelas sempre trazem.

Além do mais, a novela é inspirada na vida real, e essas coisas existem na vida real.

Mas, mais importante do que isso, a novela é para adultos. Sua classificação indicativa, geralmente, é de 12-14 anos para cima. Nessa idade, se supõe que as pessoas já saibam julgar certo e errado por si mesmas. O próprio fato de que as pessoas estão ficando contra a novela já indica que as pessoas estão julgando o conteúdo moral da própria, e não sendo influenciadas. Eu vejo nisso as pessoas tendo muito pouca confiança no julgamento alheio, como se só elas tivessem essa capacidade de distinguir entre certo e errado e as outras pessoas só consumissem passivamente TV, aceitando tudo que vêem, o certo E o errado. É claro, por esse ângulo, que existe certa condescendência nesse pensamento, como se a pessoa que critica a novela fosse melhor do que as outras. Eu mesmo estou sendo um pouco condescendente nesse texto, mas só por que as coisas que eu tenho lido justificam isso. Mais do que isso, enquanto os julgamentos dessas pessoas vem apenas de si mesmas, ou seja, do nada, o que eu digo vem de um processo de racionalização.

E a novela é boa, tem um texto excelente, cheio de bons personagens, boas tramas, tudo muito bem costurado, com bons ganchos, bom tudo. E não tem, de maneira nenhuma, conteúdo diferente de qualquer outra obra audiovisual. Só as novelas infantis podem se dar ao luxo de darem lição de moral, por que elas são feitas para crianças, pessoas ainda em desenvolvimento. Uma novela para adultos não pode fazer isso, por que seria subestimar a inteligência do telespectador. Game of Thrones, por exemplo, pra mim uma série perfeita, a melhor da atualidade. Por retratar um mundo baseado no nosso período medieval, é perceptível que todas as pessoas lá tem morais defasadas. Mas a série não fica se explicando sobre isso, por que ela é para adultos, e ela confia que saibamos julgar o que vemos. Por que deveríamos.

Mas eu me recuso a acreditar que as pessoas não tenham a capacidade de pensar nisso tudo. Prefiro acreditar que elas estejam escolhendo ignorar a parte sã e racional de seus cérebros.

Por um motivo. O beijo gay das duas senhorinhas fofas. Sim, outras novelas tiveram beijos gays, então eu acho que o problema agora é a influência dos evangélicos idiotas. E eu digo evangélicos idiotas como uma locução adjetiva – também existem aqueles que são apenas evangélicos. Eu mesmo tenho parentes evangélicos e eles são bastante racionais. Eu não entendo, mas parece que os evangélicos famosos e que automaticamente representam a classe são só os idiotas. Por que os evangélicos decentes não ficam famosos? Por que eles não se pronunciam contra os idiotas que mancham o nome de todo um grupo, os evangélicos idiotas que mancham o nome de toda a comunidade evangélica? Sim, por que se criou um estigma de homofobia em torno desse grupo, e isso não é, necessariamente, verdade. Eu até creio que a maioria não seja.

Não há problema nenhum em não aceitar alguma coisa. O problema está em ignorar e abandonar, deliberadamente, a razão.

E eu não acredito que as pessoas saibam o que estão dizendo quando criticam essa novela. E o que isso diz sobre o povo brasileiro? Um bando de ovelhas seguidoras sem a capacidade de pensar ou de julgar por si mesmas, e além de tudo um povo sem nenhuma humanidade? Sim, digo isso por li coisas grotescas por aí. Coisas que desumanizam o homossexual, como se ele não fosse mais um ser humano para a mente dessas pessoas.

E mesmo que eu saiba que ser gay é algo perfeitamente normal, não é por esse ângulo que eu vou abordar a questão. Por que eu apoio o direito dessas pessoas terem um pensamento diferente do meu (mesmo quando elas estão erradas). O que eu não apoio é o que está por trás disso. Essas pessoas não querem só pensar diferente, elas querem banir os gays da televisão. E isso eu não posso apoiar, por que isso é censura, e vai contra a liberdade de expressão.

Novelas são arte. É uma coisa estranha de dizer e não parece factível. Mas elas são artesanais, montadas pela criatividade dos escritores. Especialmente no Brasil, onde se notam estilos, que é uma das características de arte. Manoel Carlos, Gilberto Braga, cada autor brasileiro tem um estilo muito característico. E eu sou contra querer censurar, impedir, cercear os temas que os autores podem escrever. A novela pode ser um produto aberto, por que ela é mudada de acordo com a opinião da audiência. Mas, mesmo assim, autor e público escrevem a novela juntos. TODO o público.

E aqui entram os aspectos práticos, racionais, de que não se pode divorciar.

Os gays também vêem novela. Eles também são gente, e novela é um produto de massa, feito para todo mundo. E nós também queremos nos ver representados na ficção, do mesmo jeito que um hetero quer se ver representado. E querer impedir isso é a mesmíssima coisa de querer impedir que a TV mostre negros, ou chineses, ou anões, ou gordos. É a tentativa de invisibilizar um grupo. Como se as pessoas que querem impedir que os gays apareçam na TV fosse mais importantes do que as outras. Só a opinião delas importa. Só o que elas querem que seja mostrado na TV deve ser mostrado. A TV não é feita só para as maiorias, mas também para as minorias. Por que as minorias existem também. E só por que elas são minorias, não significa que não tenham o mesmo valor.

E mais do que isso, gays ainda sofrem violência por isso, ainda são mortos por isso. Então a TV tem não apenas o direito, como o dever de mostrar essas pessoas. Por que é o marginalizar, e o tornar invisível, que permitem e que são coniventes com a violência. E é claro que uma pessoa que é a favor desse tipo de violência contra outro ser humano só pode ser um psicopata. E, também, muitos pais rejeitam os filhos por serem gays, então a homofobia ainda acaba com algumas famílias. E a TV pode não ter a capacidade de influenciar as pessoas, mas ela tem a capacidade de visibilizar. Por que a impressão que se tem é de que só o que aparece na TV existe. E os gays existem. Não mostrar eles não vai fazer eles sumirem. A verdade e a crença não tem correlação. Não é só por que você quer um milhão de reais na sua conta, que esses um milhão vão existir.

Outro fator é a verossimilhança. A novela, como produto influenciado e inspirado pela realidade, tem que tentar ser realista. E uma maneira de fazer isso é colocando temas atuais nas tramas. Uma novela sem gays seria menos realista por isso.

Dito isso, eu vou dizer que ainda vejo um problema na representação deles na TV. Que é a repetição de personagens e tramas. Todos os personagens gays tem que vir acoplados a uma história de homofobia e/ou saída do armário. É como se em todas as novelas o mocinho e a mocinha tivesse exatamente a mesma trama, só apresentada de maneira diferente. É repetitivo e cansativo. Nisso eu entendo haver reclamação. Até por que é como se a novela estivesse dizendo ao público que ele é homofóbico e por isso ela precisa tratar de homofobia. É ofensivo. As novelas já trataram homofobia e armário o bastante para que o público esteja mais esclarecido. Nos EUA, que é um país mais avançado, a TV já mostra gays com naturalidade. Em séries como How to Get Away with Murder e Teen Wolf. Apesar de que, nas novelas, como Days of Our Lives, a trama gay ainda é sobre armário e homofobia. Mas o produto principal lá são as séries, aqui é a novela.

Eu não culpo o público por se cansar de ver sempre a mesma história se repetindo de novo e de novo. Mas as pessoas deveriam ter vergonha de falar certas coisas que elas dizem.

Pensando bem, talvez a novela tenha, sim um problema. Ela pesou um pouco a mão na maldade. Eu digo isso não por mim, por que eu adorei e adoro. Mas sei que a novela não é feita só para mim e não é só a minha opinião que importa. E essa rejeição não pode ser só sobre as lésbicas, por que outras novelas já tocaram no assunto. Eu temo que a novela perca a qualidade para agradar ao público, mas ao mesmo tempo sei que algo tem que mudar, e vai mudar. Por que se o público está se manifestando contra  novela, é por que queria gostar dela. Já é meio caminho andado.

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Crítica Adiantada – Amor à Vida

Publicado: 31 de janeiro de 2014 em TV Brasileira
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imagesNesse blog eu tento só escrever das coisas que eu gosto. Mas abro aqui uma exceção para entrar na diversão que é falar mal de Amor à Vida. Infelizmente, meu texto não vai ser engraçado, como poderia. Há muitos textos engraçados por aí na net sobre a novela. O que eu procuro com esse texto é destacar os erros que a ficção pode ter e que podem ser evitados.

Amor à Vida tinha ideias e temas muito bons, porém muito mal executados. O texto, os diálogos, por exemplo, era tudo muito didático. Isso é subestimar a inteligência do telespectador. Todas as coisas eram repetidas várias e várias vezes durante o mesmo diálogo. Coisas que aconteceram a um episódio anterior eram relembradas com palavras E flashback. Sim, é tudo muito enfático, sempre com palavras E imagens. Isso é um mau uso da mídia. Se estamos vendo uma obra audiovisual, não podemos deixar isso passar em branco assim. Mostrar imagens do que você está contando com o texto em áudio é redundante. Redundância é cansativo. Do mesmo jeito que você ser obrigado a ver uma cena sempre repetida por vezes incontáveis. Fora que tudo é MUITO explicado. Claramente o autor escreve para pessoas idiotas, ou ele assim o crê.

Outro erro cometido aqui foi o fato de que os personagens não tinham personalidade. Pelo menos não tinham uma personalidade. O Ninho do começou ao fim da novela foi umas quatro pessoas diferentes. O Félix de uma hora pra outra se tornou uma pessoa completamente diferente. E esse não é o principal problema com os personagens. Tem um pior, muito pior, e gravíssimo.

O autor queria fazer alguns personagens serem inteligentes. Mas ao invés de fazer eles serem inteligentes, ele fez todos os personagens em volta deles serem idiotas completos pra esses personagens parecerem inteligentes. Assim, Paloma, César, Bruno, etc. se tornaram uns asnos para que Félix e Aline parecessem inteligentes. Mais do que isso, várias vezes isso também foi reiterado, com personagens falando que o Félix ou que a Aline é esperto. É o contar ao invés de mostrar. E em storytelling é sempre melhor mostrar do que contar. Ainda mais numa obra audiovisual. Principalmente por que os outros personagens foram “emburrados” pra se fingir que um é inteligente.

Também teve muitas situações ridículas. Coisas absurdas, inverossímeis, que não dá pra acreditar. Que abstraem do tom sério da novela. Fazem a novela se passar por ridículo.

Uma coisa em que muito se erra e é claro que nessa se errou também é núcleos secundários que se repetem de novo e de novo e de novo. Que são núcleos cíclicos, repetitivos. E que, além disso, ainda vão terminar do mesmo jeito que começaram. Valdirene, Michel, Perséfone foram personagens que saíam de um ciclo pra entrar em outro. “Zorra Total” total.

E teve tantos personagens que foram abandonados, inúteis, deixados pra lá e depois pêgos de novo, depois abandonados de novo, depois pêgos de novo. Sem sutileza nenhuma.

A falta de sutileza também esteve presente na maneira como a trama foi apresentada. Tudo muito brusco. Do nada coisas eram colocadas na trama, sem ser condizentes com o que foi apresentado antes. Os personagens começavam a dar pistas de algum mistério de uma hora pra outra, por exemplo.

E a enrolação? Tudo na novela era apresentado e demorava semanas e mais semanas pra se desenrolar. Não teve uma coisa, depois da primeira semana, que tenha se resolvido de maneira rápida. Tudo, absolutamente tudo, se esticou. E isso se agrava, quando tudo foi explicado e repetido, reiterado em todos os diálogos e flashbacks. Sério, todos os pontos novos apresentados na trama foram repetidos umas trinta vezes. Não teve nada que tenha sido dito e mostrado só uma vez.

E as mini-“tramas”? O autor colocou tanto merchandising social gratuito na trama, que foi do nada a lugar nenhum, e que foi resolvido bruscamente. Muita encheção de linguiça. Fora que os finais dos personagens mais “célebres” da novela também foi muito brusco e sem sutileza, com os personagens, sem motivo especial nenhum para isso, com uma desculpinha besta, tomando decisões que na novela inteira eles não tomaram. Muito irreal.

E as tramas ridículas? Patrícia, Michel, Guto e Silvia não tinham trama. Só serviam pra fazer sexo e atrair público através de ficarem pelados. Perséfone teve uma trama extensamente ofensiva aos gordos, e era pra ser exatamente o oposto disso. Na verdade, a novela inteira foi uma ofensa. Uma ofensa ao público e uma ofensa à qualidade.

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*spoilers*

Avenida Brasil foi uma novela que em partes era absolutamente incrível, podendo ser considerada a melhor novela de todos os tempos. E em outras partes era horrível, podendo ser considerada nível-Fina-Estampa (muito baixo btw). A trama de vingança de JEC apresentou um texto muito bem escrito e até ousado às vezes, que priorizava personagens e drama. A trama principal é o que se pode chamar de sem falhas. E eu fico impressionado com o fato de que o João Emanuel Carneiro não poupou os atores, ele colocava ali arriscando mesmo, cenas dificílimas de serem feitas. Eu fico imaginando o misto de desespero com excitação que os atores sentiam ao ler o que tinham que interpretar (principalmente a Adriana Esteves). Digo, devia dar um friozinho na barriga, mas todos se saíram incrivelmente bem e acabaram adicionando ainda mais profundidade pra esses personagens já tão profundos por natureza (por escrita).

A novela começou com um primeiro capítulo avassalador de bom. Depois deu uma caída, claro, pra introduzir todos os conflitos com calma (mas ritmo). E então já começou um momento muito bom quando a Carminha se atuo-seqüestrou (e acabou sendo seqüestrada de verdade!). Ali a novela já começou a mostrar a que veio. Mas o nível subiu mesmo quando as coisas começaram a ser reveladas, quando a Carminha descobriu que a Nina era a Rita. Aí pegou fogo e não parou mais. nos últimos capítulos, a coisa foi estupenda. Uma novela cheia de cenas memoráveis e que, a despeito de todas as pontas soltas supostamente apontadas por internautas por aí (pen drive), eu não vi nenhuma. Achei bastante coesa.

A trilha sonora foi outro dos pontos fortes. Não que as musicas sejam boas por si só, mas elas fitam completamente com as cenas bregas. Não no sentido pejorativo, as cenas não são bregas, são sobre breguice. Mas de uma maneira superficial, sendo somente um detalhe para dar realismo (e atrair a nova classe C).

Agora vamos falar um pouco das falhas. Primeiramente os núcleos coadjuvantes. Eles começaram muito bons, com um bom tempo de cena (isso acabou sendo ruim), e sendo melhores do que os de A Favorita. Mas o autor pareceu ter preguiça de escrever pra eles, e eles só rodaram em círculos do começo ao fim da novela. Acabaram sendo bem piores do que os bem-fechados de A Favorita. Claro, tem que se levar em consideração que, se ele tivesse focado neles também, talvez ele não tivesse capacidade de fazê-los ser realmente histórias e ainda ter um núcleo principal tão bom. Sugiro que ele na próxima novela não tenha coadjuvantes. Seria melhor. Seria possível? Não sei.

Suellen era uma personagem muito boa, e ousada. Depois se juntou ao Leandro e ao Roni e tudo se tornou um imbróglio insuportável. Que, aliás, não foi uma trama. Foi um retalho de insinuações contraditórias do começo ao fim. Um retalho completamente vago e covarde. Outra trama que andou em círculos, mas foi menos covarde, foi a do Cadinho. O autor realmente contou uma história ali, mas uma história parada, que tentava ser engraçada e raramente conseguia, machista. E, pior, completamente previsível. E que terminou exatamente do mesmo jeito que começou, assim como passou a novela inteira se repetindo. Chato.

Outra falha foi a grande queda de ritmo depois da morte do Max, e o “quem matou?”. Felizmente logo a trama se recuperou e terminou com um sequestro que, para minha surpresa, não foi cliché.

A direção foi soberba, com cenas de um suspensa cinematográfico e impecável. Todos os aspectos técnicos foram muito bem trabalhados.

Voltando à trama, a novela não parou do começo ao fim (no núcleo central), cheia de ganchos e grandes momentos com grandes atuações. E que personagens! Personagens capazes de fazer você pensar, estudá-los e entendê-los. E eles ainda te surpreendem!

Teço todos os elogios à condução da trama principal e todos os impropérios para as tramas secundárias.

E o final da trama foi espetacularmente bom, um dos melhores (talvez o melhor) final de novela de todos os tempos.

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(mais…)

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Insensato Coração foi uma novela completamente diferente de tudo que havia sido feito antes, pelo menos em sua execução. Apesar de que isso tornou muito difícil sua popularização, quase que numa guerra entre qualidade e audiência. A trama teve um primeiro capítulo muito bom, depois teve um início beeeeem morno. Não que faltassem acontecimentos, mas a novela estava desconjuntada, parecia uma colcha de retalhos, os núcleos não se comunicavam. Não parecia uma obra única, mas sim várias pequenas novelinhas. Depois é que as coisas começaram a entrar nos eixos um pouco quando a personagem Norma começou a ser feita. Porque as coisas começaram a ser feitas com muita lentidão, sem pressa, criando essa personagem. E também com muita calma os autores começaram a fazer o que futuramente seriam as ligações da trama. Tá certo, ainda não estava perfeito, mas já era um sinal de que as coisas iriam se encaixar. Mas estava bem fraca. Eu diria que valeu a pena essa lentidão, considerando o quanto ficou boa e funcional mais pra frente. E esse mais pra frente foi quando a Norma matou, o que início aos acontecimentos que levaram ao início da vingança contra o Léo e todos os núcleos se encaixaram, tornando essa uma novela incrível. Então eu diria que analisando a novela toda ela não foi perfeita, mas se fosse analisar só dali pra frente, ela foi perfeita. Mas o início foi necessário para que a parte final existisse, e isso torna a análise difícil. Mas que foi uma novela boa, foi. Ao contrário de muitos autores que tentam fazer personagens profundos mas só criam coisas ridículas inverossímeis, os personagens dessa novela foram todos muito bons! Apesar de no início alguns personagens bonzinhos como Raul e Pedro serem tão bonzinhos que irritam, depois até isso melhorou. Todos os personagens foram bastante acreditáveis e se mantiveram fiéis a si mesmos do começo até o final da novela, inclusive com motivações críveis para seus atos. Uma personagem que algumas pessoas não entenderam e por isso criticaram bastante foi a Norma, mas essas pessoas não entenderam que ela não é uma mulher comum, mas também não é inexistente. Existem mulheres que amam demais e mesmo a pessoa sendo definitivamente abusiva e ruim para ela, ela ainda faz tudo por esse “amor”. São raras, minoria, mas existem, claro. Além do mais, um personagem não precisa ser baseado em uma pessoa real, senão nem tem graça, ele se torna previsível e deixa de ser um personagem. E a graça da ficção é exatamente apresentar uma mistura de coisas que é diferente das coisas da vida real. Mas possível. Ou que se crê ser possível. Outra coisa existente nessa novela, e que chamou tanta atenção quanto se fosse uma novela aparte, foi o caso dos gays. Foram muitos, foram bem retratados e realmente foi uma evolução nesse sentido em novelas. Foi um tratamento realista, mas um pouco desconjuntado do resto da novela. O único lugar da novela que os personagens não tinham mais de uma trama, a única coisa que eles faziam eram serem gays e todos os conflitos que eles puderam ter foram baseados nisso. Nada novelístico. Eu esperava que, a Paula fosse descobrir que o Eduardo e o Hugo estavam juntos e ia fazer armações pra separar os dois. Aí eu percebi que isso era impossível, que o núcleo foi criado pra debater descoberta da homossexualidade mesmo(embora depois que o Hugo se aceitou a Globo censurou e tudo o mais sobre isso párou. Eu acho que os autores exageraram na censura). Talvez fosse necessário fazer personagens panfletários agora, para que no futuro se possa fazer personagens folhetinescos. E um romance folhetinesco. Eu poderia tecer um comentário só sobre isso, mas já comentei o bastante. Continuando sobre a novela, vários personagens e situações brilharam, como Bibi, que foi deliciosa de assistir e Douglas, atuação impecável e personagem brilhantemente montado pelo Ricardo Tozzi. Também foi destaque o trio amoroso Carol-André-Raul, que realmente teve um funcionamento invejável a outras tentativas de trio em novelas. A Marina, personagem principal, começou bem frágil, opaca, na novela, mas aos poucos a Paola Oliveira mostrou o talento que tem e montou a personagem de uma maneira única e deu brilho a ela. A Wanda foi uma ótima personagem, embora um pouquinho subaproveitada na trama, vide que uma das melhores cenas da novela toda foi uma dela no último capítulo, confessando o seu crime. Ali ela foi uma grande personagem. Mas não demonstrou isso durante a novela, pelo menos não tanto quanto poderia. Débora Secco também deu vida a uma personagem bacana e que brilhou durante a novela. Cortez também foi um personagem brilhantemente escrito e interpretado por Hérson Capri e muito importante para o Brasil (ser discutido). Gabriel Braga Nunes também criou um personagem irresistível. Mas os maiores louros de vitória foram para a composição de Glória Pires, na sua personagem dúbia e totalmente no limite da moralidade. E ela e Léo tomaram a novela para si nos momentos em que estavam juntos. Mas nem tudo são flores nesse quesito, já que Eriberto Leão não conseguiu levar seu personagem, sempre fazendo as mesmas caretas e movimentos gestuais exagerados, e destoando de todo o conjunto da novela. Mas não comprometeu nada. Se o texto da novela foi bom, o mesmo pode ser dito da direção segura de Dennis Carvalho e das músicas que a embalaram e que, ao contrário das forçações de barra da atual (Fina Estampa) fitavam completamente com cada cena. E ao contrário de novelistas como o Sílvio de Abreu (Passione), que conseguem se focar num tema (policial) mas são incapazes de fazer outro (romance), aqui houve um completo equilíbrio, inclusive com casais puramente água-com-açúcar como o Rafa e a Cecília sendo bem feitos. E um tema, que foi a família, que foi muito bem focado, destacado e tratado, sem que houvesse nenhum momento didático (exceto nas cenas gays, mas isso já era esperado) e nenhum exagero. Foi uma novela muito boa, a melhor em muito tempo. Pena que o nível de qualidade já caiu (com a atual). E mais pena ainda que, mesmo sem qualidade, está fazendo sucesso.

Ti-Ti-Ti!

Publicado: 21 de março de 2011 em TV Brasileira
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Ti-Ti-Ti!, remake de duas novelas de Cassiano Gabus Mendes (Tititi e Plumas e Paetês), acabou. Escrito por Maria Adelaide Amaral, mais conhecida por seu trabalho em ótimas minisséries, se revelou também uma ótima novelista. Tititi acabou não sendo muito bem um remake, mas uma nova versão, completamente diferente das tramas originais. E cujos méritos saltam aos olhos. Pra começar, tem DOIS núcleos centrais importantíssimos! Isso se deu pelo fato de que se originou de duas novelas diferentes. Então tem o núcleo da Marcela e o núcelo do Leclair e o Valentim. E ambos os núcleos brilharam com o mesmo ardor, o que foi uma coisa bacana, deixou a novela diferente. Fez com que ela fosse muito mais cheia de acontecimentos, ação e, principalmente, sem um personagem propriamente principal. Para completar, um dos núcleos é constituído de uma rivalidade entre dois personagens. Mas a novela vai muito além desses pequenos lances de originalidade. Todos os personagens brilharam. Impressionante como não teve UMA trama completamente chata, UM personagem completamente subutilizado! Incrível! E outro ponto alto da novela foi o tom. Houve muita variedade de situações e personagens, mas toda a novela, cada cena, teve o mesmo tom empregado de comédia com drama na mesma medida e do mesmo jeito. Isso (e o fato de ter conexões plausíveis entre os núcleos) deu a impressão de se estar mesmo vendo um produto só. Isso é MUITO mais do que as novela atuais tem conseguido, já que parecem um retalho mal feito e com forçação de barra pra se juntar. Mas não é o caso aqui. E isso é ainda mais digno de mérito para Maria Adelaide, porque foram duas novelas em uma, tinha muito mais chances de núcleos desconjuntados, mas isso não aconteceu. Realmente a novela foi uma coisa só, muito bem amarrada. E com um final que pegou coisas até mesmo do início da novela pra serem explicadas. Outra coisa muito boa foi a falta de marasmo. Sempre houve um zilhão de coisas acontecendo na tela. Isso se deu, principalmente, pelo fato de que todas as cenas foram microcenas, realmente muito muito muito pequenas (até demais). Também é interessante notar que a comédia da novela foi ótima, muito engraçada, e potencializada pela ótima performance dos atores! O texto, no geral foi muito bom, uma perfeita dramédia. E ainda tinha as referências a outras obras televisivas, como por exemplo, Fera Radical e o beijo gay na TV, que valorizaram o produto. Fora os personagens maravilhosos apresentados (Jaqueline é um must-have da TV!). Bom, depois de tanta rasgação de seda, vou terminar meu “review”.

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Passione acabou. Criticas foram levantadas e elogios também. Mas eu acho que ainda falta uma crítica diferente, e é isso que essa vai tentar ser. Até o Sílvio de Abreu, autor da novela, já disse (em uma fantástica entrevista) que a crítica de TV no Brasil é despreparada. Então talvez eu, alguém que sonha em poder escrever TV um dia (sonho distante), possa escrever algo digno da grande novela Passione.

Começando pelo começo, a abertura da novela foi magnífica, um trabalho perfeito, uma sinopse da trama, mostrando um monumento artístico, uma foto de um italiano feita de lixo e peças de bicicletas. É um sincretismo do que é o personagem principal, Totó, filho de uma magnata do ramo de bicicletas e um magnata do ramo de lixo. Perfeito. Além do mais, o nome da novela e a música-tema, que falam de paixão, tem tudo a ver com a novela, regida pela paixão desmedida de Totó por Clara! Enfim, tudo, do começo ao fim, faz perceber que Sílvio de Abreu tinha tudo planejado. E isso é um ponto a favor.

Uma coisa interessante em se fazer uma crítica depois de todo mundo é poder criticar as criticas, e com certeza isso vai acontecer aqui.

A começar pelo lado bonzinho de Passione, que com certeza não é o foco. Aqui o divertido são os vilõs, e eu não gosto mesmo de mocinhos, acredito que o Sílvio também não. Um ponto bacana e altamente interessante de Passione é que todos os personagens tem o lado bom e o lado ruim. Portanto, os personagens se tornam mais interessantes por isso. Criticam a Diana por ela ser boazinha de mais, mas ela tinha uma rixa homérica com a Melina. Pra mim pouco importava o namoro dela com o Mauro, eu gosto é das coisas divertidas. Nada tão divertido como o conflito do Mauro pra salvar a empresa largar a mulher que ama e ficar com a Melina. Fantástico! É isso que eu quero ver: conflitos e surpresas. Por falar em Melina, foi uma das personagens mais bem construídas ever! Ela não era boa, nem má, era simplesmente uma personagem mimada e sem escrúpulos, achando que tudo que ela quer, tem que conseguir. E a Mayana Moura brilhou fazendo essa contraditória personagem. E até mesmo tem um motivo pra Melina e os outros filhos da Bete serem como são, e que é um dos motes da novela, que é a criação dos filhos.

Isso é uma coisa que eu acho boa em Passione. Estimula a reflexão. Pra começar, por nem todo mundo ser bom nem mau completamente. Não há maniqueísmo. Depois, porque Clara foi abusada pela avó, Fred foi traumatizado pelo pai e os filhos Gouveia foram mal criados, conseguindo tudo o que queriam. Isso gera uma importante, inédita e divertida discussão sobre a criação dos filhos. Muito bem feito mesmo.

Eu concordo que, como novela, Passione foi um fracasso. Não tinha nenhuma das características capazes de fazer uma novela ter sucesso de novela. Mas foi uma ótima obra de arte, superior ao que costumam ser as novelas. Tinha mais qualidade do que costumam ter as novelas, mas, por fugir do básico, arrumou briga com a conservadora população noveleira no Brasil.

Tudo na novela girou em torno de Bete Gouveia, que foi vivida pela fantástica atriz Fernanda Montenegro, que estava econômica nessa novela, por algum motivo. Mas ainda assim, Bete teve momentos de extrema esperteza no decorrer da novela, dignos de uma grande personagem principal. Mauro foi outro personagem bonzinho que brilhou, mostrando que também era capaz de lutar de igual para igual com os vilões.

Aliás, os vilões são o brilho nessa novela. Mesmo não fazendo muitas vilanices (e mesmo assim a novela continuou eletrizante, coisa que só um grande autor poderia fazer), eles chamaram a atenção. Na verdade, Passione foi uma novela sobre vilões em guerra um com o outro e os bonzinhos no meio dessa briga. Uma mistura interessante e cheia de surpresas. Fred e Clara e seus embates foram impressionantes. E eles nem eram vilões muito inteligentes, na verdade eram bastante burros, mas às vezes tinham suas ideias geniais também.

Saulo foi outro ótimo vilão, vivido por Werner Schuneman, era arrepiante. Infelizmente morreu cedo na novela (e de forma violentíssima). Mas foi pro bem a morte dele. Iniciou a fase de mistério da novela, que não foi tão chamativa quanto a de Belíssima, mas na parte importante, a revelação, foi infinitamente superior (embora o modo como a Clara fingiu a própria morte foi imitação de Bia Falcão).

Mas a história não parou, foi cheia de emoções. Depois dos lixos Páginas da Vida, Caminhos da Índia e Viver a Vida, Passione foi uma grata surpresa. Simplesmente, do começo ao fim, ela nunca parou. Um grande feito. Apesar de que, para isso, alguns núcleos secundários desnecessários tiveram que existir. Mal de novela. Berilo, Jéssica, Agostina e Mimi eram um bom núcleo… no começo. Depois, passaram a repetir e repetir e repetir e repetir. Depois repetir de novo. Cansou, virou um porre. Haviam inovações nas maneiras de repetição, mas não justificavam a existência daquela trama. E, no fim, Sívlio de Abreu optou pela saída mais fácil, rápida, óbvia e clichê para os três, teve medo do desafio de ser criativo e inventar uma maneira bacana de terminar a história deles. A Clô foi uma grande personagem cômica da novela, mas mais pra frente na novela, o autor começou a exagerar e, mesmo com a impecável Irene Ravache, a personagem não tinha como não se perder em meio aos exageros do autor.

Passione foi, também uma novela sem censura. Teve cenas fortes, temas fortes. O que é bom, dá mais valor de realismo à trama. A vida não é sutil. O final de Agostina, Berilo e Jéssica foi antiético, assim como o da velhinha Brígida. Dois finais tão parecidos numa mesma novela podem ser considerados um ataque de falta de moral desnecessário. Concordo.

Ligações familiares complexas são um dos marcos de Passione, que a tornam mais original e única. São tantas ligações e tão doidas e inusitadas… mas o autor parece ter invocado com esse (genial) conceito e exagerou muito. São tantas coincidências, tantos parentescos, chega ao ridículo. Mas ainda assim, isso não atrapalha as emoções da novela e dá um ar de originalidade ao produto. Embora seja um defeito.

Em termos de atuações, tivemos grandes representantes e grandes momentos. Como, por exemplo, o momento da morte de Totó (eu até torcia pra ele ter morrido mesmo, já que ele queria controlar todo mundo, principalmente os filhos, era um chato!). E, depois, a volta do Totó. Foram alguns dos grandes momentos de Passione, uma novela cheia de emoçõese grandes ganchos, como tem que ser!

Apesar do maior erro da novela: coincidências. Por coincidência, Stela se apaixonou pelo subrinho do marido. Também por coincidência, a filha dela se apaixonou por Anielo. Germano veio parar logo na casa de Bete no Brasil, onde futuramente encontraria Gema, e onde Gema viveu criança! Fátima foi se apaixonar logo por Sinval, subrinho do pai desconhecido dela. Berilo veio para o Brasil e, coincidentemente, se casou com a meia-irmã do seu ex-sogro. Tem muito disso em Passione e tira a credibilidade da trama.

Quanto ao segredo de Gerson, eu acho que foi muito bacana. O erro não estava no segredo e, sim, no fato de ter se tornado um segredo. Falar que o segredo do personagem foi fraco é bobeira, uma vez que uma coisa que pra um é normal, pra outra pessoa é terrível. Então é normal que para o Gerson, o que ele sentia fosse anormal, principalmente por ser completamente diferente do normal da vida dele. Foi um merchandising social, praticamente. E o autor fez um segredinho em cima disso, que virou um segredão sem necessidade. O que eu concordo que foi um erro foi o exagero da reação da Diana (Carolina Dieckamn), que fez parecer que o segredo era mesmo um mistério. Aliás, em outros momentos também houve exagero. O autor sabia que não era grande coisa, deveria ter dosado um pouco mais a chamada de atenção para esse ponto.

Mas Passione teve uma coisa muito legal, que foi o fato de que nunca nós, espectadores, sabíamos o que estava acontecendo na novela! A gente via a cena e não sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Isso é fantástico! Ainda mais combinado com a, pela primeira vez funcional, técnica de gravar várias cenas de uma mesma coisa e depois escolher uma, confundindo o público.

Enfim, o saldo foi extremamente positivo (apesar dos exageros do AS nos núcleos cômicos)! Valeu!